quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Lágrima

LENTAMENTE DESCE A LÁGRIMA ATÉ AOS MEUS LÁBIOS E AÍ GANHA VOZ - QUERO SER PÁSSARO E VOAR ELIMINANDO HORIZONTES; QUERO SER BARCO E NOVOS RUMOS A CADA DIA GANHAR; QUERO SER CANÇÃO, E CANTAR, CANTAR CANTAR; QUERO SER ALEGRIA, VITÓRIA, ALELUIA; QUERO SER SEARA E EM PÃO ME TRANSFORMAR....SÓ NÃO QUERO SER ESTA TRISTEZA NA VIDA...ESTA CERTEZA DE SÓ SER RIO SE O CORAÇÃO SOFRER...

URGENTEMENTE

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
é urgente destruir certas palavras.
odio, solidão e crueldade,
alguns lamentos
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

EUGÉNIO DE ANDRADE

Tristeza

A CHUVA CAI NA CALÇADA COMO SE FOSSE AGULHAS. LEVA CONSIGO AS PASSADAS DE QUEM ALEGRE OU TRISTE ALI PASSOU...SÓ MINHA DÔR PERMANECE SENTADA NAS DURAS PEDRAS...NÃO HÁ CHUVA QUE A LEVE NEM SOL QUE A DISSOLVA...É ÁSPERA, PESADA E ESCURA...FERE-ME O SER E A ALMA... SABE-SE FAZER PRESENTE...O SEU GRITO ME ALCANÇA ALÉM DA PORTA FECHADA...HOJE É SENHORA DE MIM E DELA SOU SUA ESCRAVA...DESISTO...NÃO HÁ FORMA DE LUTAR...DEIXA-A ESTAR...DEIXA-A ESTAR...


QUE NENHUMA ESTRELA QUEIME O TEU PERFIL

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

SOFHIA DE MELLO BREYNER

Medo

O MEDO É UMA FACADA NO CORAÇÃO E O ESTRANGULAR DA ALMA; É A IMENSA AVE NEGRA QUE NOS SOBREVOA APAGANDO A LUZ DO SOL; É A MÃO PODEROSA QUE NOS ARRASTA PARA O ABISMO E PARA A QUAL NÃO TEMOS HIPÓTESE DE RESISTIR. QUANDO O MEDO HABITA EM NÓS FECHAMOS OS OLHOS, COMO SE ASSIM LHE PUDESSEMOS FUGIR.SOMOS PRISIONEIROS...CONDENADOS...ATADOS DE PÉS E MÃOS. E É ASSIM, SEM ACÇÃO, QUE ELE NOS SEGREDA OS HORRORES QUE NOS ESPERAM...E SUAS GARGALHADAS UIVANTES ECOAM NA ESCURIDÃO SEM FIM DO NOSSO SER...


ENTREI NO CAFÉ...

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

JOSÉ GOMES FERREIRA

Poeta

TE AMO PORQUE ME AMO PRIMEIRO E PARA MIM QUERO A LUZ DE MIL SÓIS, O BROTAR DE UMA SEMENTE, A PRIMEIRA PALAVRA DE UMA CRIANÇA, A VELOCIDADE DO BEIJA - FLÔR. PARA VIVER PRECISO AINDA DA TERNURA COM QUE A ONDA BEIJA A AREIA, OLHAR O CÉU DEITADA NA RELVA,UM COPO DE ÁGUA QUANDO TENHO SEDE. NÃO PRESCINDO TAMBÉM DA PALAVRA LIBERDADE,DE ACORDAR DO SONHO DE VIVER NUM MUNDO EM PAZ E VER TODA A TERRA INUNDADA DE POMBAS BRANCAS.PRECISO DE RESPEITAR OS OUTROS COMO A MIM MESMO, DE ESTENDER A MÃO SEM OLHAR A QUEM, DE GRITAR A REVOLTA SE TAL É PRECISO,DE SENTIR QUE O MUNDO TODO CABE NA PALMA DA MINHA MÃO...E É PORQUE DE TUDO ISTO NECESSITO PARA SER ALGUÉM, QUE TE AMO TANTO, POIS ENCERRAS EM TI CADA IDEIA, CADA PALAVRA, CADA ACÇÃO QUE QUERO PARA VIVER E SER FELIZ...



POEMA DA AMANTE

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

ADALGISA NERY

ser Poeta

NUNCA PODERIA SER POETA...LIMITO-ME A LER E A VIVER A POESIA. POR VEZES PENSO: QUE POEMA TÃO TRISTE!...COMO DEVIA DOER O CORAÇÃO E A ALMA DE QUEM O ESCREVEU! DE CERTEZA NINGUÉM O COMPREENDEU NO MUNDO REAL, E ELE FOI PEGANDO CUIDADOSAMENTE NAS PALAVRAS, AQUI E ALI ARREMESSADAS AO CHÃO,GRITADAS, DESPREZADAS, CUSPIDAS E COM CARINHO, COM LÁGRIMAS, REFEZ COM ELAS O SENTIDO DO QUE ERA A SUA VIDA....SURGE ENTÃO O POEMA,PUNGENTE, DOLORIDO. NOS DESVARIOS DA VIDA, PODE ATÉ ACONTECER QUE ALGUÉM QUE O DESTRATOU VENHA A LER O POEMA E O ELOGIE, NUMA INTELECTUALIDADE PRETENSAMENTE SUPERIOR. NINGUÉM PENSA NO POETA.MAS EU NÃO CONSIGO DEIXAR DE O IMAGINAR, NO MEIO DA SOLIDÃO E EM SILÊNCIO, SOFRENDO A CADA PALAVRA QUE DESENHA NO PAPEL.NÃO, EU NÃO PODIA SER POETA.APENAS SEI QUE,QUANDO A VIDA ME OPRIME...ESBRACEJO.QUANDO A ALMA ME DÓI...GRITO.SE O AMOR ME ABANDONA...APENAS CHORO. TODA A MINHA REVOLTA FICA PRESA EM MIM, NÃO SEI COMO A TRADUZIR EM POESIA E OFEREÇÊ-LA AO MUNDO....POETA?!...É BEM MAIS DO QUE EU.

POEMA NATURAL


Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

ADALGISA NERY

Mão

DEIXO QUE A ONDA CALMA SE ACABE SOB OS MEUS PÉS E REMEXO LENTAMENTE A AREIA ENSOPADA QUE FICOU...QUANDO ERA PEQUENA CONSTRUÍA CASTELOS DE AREIA. QUERIA CONSTRUÇÕES GRANDES E COMPLEXAS, COM AMEIAS FOSSAS E PONTES...AH! COMO EU GOSTAVA DAS PONTES E COMO A MÃO PODEROSA DE MEU PAI SE TORNAVA DELICADA, ESCAVANDO A AREIA...E A PONTE ALI ESTAVA, MISTERIOSO EQUILÍBRIO. E QUERIA OUTRA E OUTRA...REPENTINAMENTE ACORDO DESTAS LEMBRANÇAS... SEU RISO SALTA DA MINHA MEMÓRIA E ESPALHA-SE EM MEU REDOR...MEU PAI...MEU PAI, MINHA FORTALEZA DE ABRAÇOS, MINHA ÂNCORA, MINHA CERTEZA,MEU BÁLSAMO CONTRA A TRISTEZA, ARMAZÉM DO MEU AMOR.AS SAUDADES FERRAM AS GARRAS NO MEU PEITO...CERRO OS OLHOS COM FORÇA, NÃO QUERO CHORAR...PARA ELE, RISOS,HONRA, BEBER A VIDA EM GRANDES TRAGOS...ESTENDER A MÃO, AMAR O AMIGO, CONHECER O PERDÃO, ABRAÇAR FORTE....E NAQUELES TEMPOS DE ESCURIDÃO, ENSINAR-ME COMO VIVER E LUTAR PELA PALAVRA LIBERDADE...MEU PAI....CONTINUAS O MEU HERÓI!...

REPOUSO

Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela
canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem
os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas
entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo
agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito
amada.

ADALGISA NERY

Haiti

NÃO SÓ A VIDA CASTIGA, NEM SÓ O FUTURO É INCERTO.OLHAM-SE OS FILHOS QUE NUNCA FORAM CRIANÇAS E QUE JAMAIS PODERÃO SER HOMENS...NÃO BASTA TER QUE DESENHAR UM SORRISO E TER FLORES NAS MÃOS PARA COLOCAR NOS PESCOÇOS DOS TURISTAS. FLORES NÃO SE COMEM.NÃO CHEGA QUE A CASA QUE SE TEM NÃO SEJA CASA, APENAS UM ARREMEDO QUE SÓ IMPEDE VER O CÉU. NÃO CHEGA QUE TÃO POUCOS VIVAM A VERDADEIRA VIDA E O RESTO SEJA....O RESTO.TUDO ISTO É TANTO....TUDO ISTO É POUCO...FALTAVA QUE A TERRA TAMBÉM SE REVOLTASSE CONTRA ELES...QUE MAL FIZERAM? APENAS O ESTAR LÁ....NÃO DEVIAM ESTAR...ESTARÃO SEMPRE A MAIS...AGORA A VIDA É MENOS VIDA,E O SEU DESESPERO E CHOQUE SÃO BOA MATÉRIA PARA FOTOS...PARA A PRÁTICA DA AJUDA...'AJUDA'...PALAVRA DE QUE NUNCA CONHECERAM O SIGNIFICADO...A CONSCIÊNCIA DO MUNDO SÓ ACORDA POR PERÍODOS DE TEMPO LIMITADOS E LIMPA-SE RAPIDAMENTE...NO FUTURO LÁ ESTARÃO, MENOS, É CERTO....MAS SENDO AINDA DEMAIS...



POEMA QUE ACONTECEU


Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.


A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE